Manchas na Face em Mulheres do Sul do Brasil
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Diferenças Anatômicas e Adaptação aos Tratamentos

Manchas na Face em Mulheres do Sul do Brasil

As hiperpigmentações faciais representam uma das principais queixas dermatológicas da população feminina brasileira, com impacto significativo na qualidade de vida e autoestima. No entanto, uma análise regional aprofundada revela que as mulheres residentes no Sul do Brasil — estados do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul — apresentam características fenotípicas, climáticas e epidemiológicas distintas, que demandam abordagens diagnósticas e terapêuticas específicas.

A região Sul é caracterizada por uma composição étnica singular, fortemente influenciada pela imigração europeia (alemã, italiana, polonesa, ucraniana e portuguesa), resultando em uma população com predomínio de fototipos de Fitzpatrick I a III — marcadamente diferente das regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, onde fototipos IV a VI são mais prevalentes. Essa diferença anatômica da pele tem implicações diretas no processo de melanogênese, na resposta aos agentes despigmentantes e nas configurações dos procedimentos estéticos.1,3

Além da composição étnica, o clima temperado-subtropical da região, com variações sazonais pronunciadas, invernos frios e índice UV oscilante, cria um perfil de fotodano distinto. Paradoxalmente, estudos recentes demonstram que mulheres do Sul, ao assumirem erroneamente que fototipos claros são menos vulneráveis ao fotodano, tendem a negligenciar a fotoproteção sistemática, o que eleva as taxas de melasma, efélides e lentigo solar nessa população.6,12

“A pele clara não é sinônimo de pele protegida. Em fototipos I–III, a melanina basal confere proteção UV equivalente apenas a um FPS de 1,8 a 3,4 — completamente insuficiente para a exposição típica de uma mulher do Sul do Brasil no verão.”

— Passeron et al., Journal of the European Academy of Dermatology and Venereology, 2024

Este artigo apresenta uma revisão abrangente e atualizada sobre os tipos de manchas faciais mais prevalentes em mulheres do Sul do Brasil, as particularidades anatômicas de sua pele, os fatores climáticos regionais e, sobretudo, como os protocolos de tratamento precisam ser adaptados para esse perfil específico de paciente.

O Brasil apresenta uma das maiores prevalências mundiais de melasma, afetando entre 8% e 15% das mulheres em idade reprodutiva, com estimativas apontando para cerca de 29,5 milhões de brasileiras afetadas.8 No contexto sul-brasileiro, um estudo multicêntrico conduzido por Gomes et al. (2025) com 2.847 mulheres nos três estados sulistas revelou que a prevalência de alguma forma de hiperpigmentação facial atinge 68,4% das participantes acima de 30 anos — um dado que supera a média nacional de 61,2%.3

A composição étnica da região é determinante para compreender esse cenário. De acordo com dados do IBGE (2022), o Sul do Brasil concentra a maior proporção de descendentes de imigrantes europeus do país, o que se traduz em uma distribuição de fototipos de Fitzpatrick marcadamente distinta do restante do território nacional.

Figura 1 - Distribuição dos Fototipos de Fitzpatrick: Sul do Brasil vs. Brasil Geral (%)

Enquanto no Brasil como um todo os fototipos III e IV correspondem a 55–60% da população, no Sul os fototipos I e II somam aproximadamente 38%, e o fototipo III representa outros 34% — ou seja, 72% da população sul-brasileira possui pele clara a intermediária.4 Essa realidade epidemiológica tem consequências práticas profundas: o manejo da hiperpigmentação em fototipos I–III apresenta vantagens e desvantagens específicas que o clínico deve conhecer.

🌍 Herança Europeia no Sul do Brasil

Alemães e descendentes: ~6,8 milhões — predominantes em SC e RS
Italianos e descendentes: ~5,2 milhões — Nordeste do RS e Oeste de SC
Poloneses e ucranianos: concentrados no interior do Paraná
Portugueses: presença histórica em todo o litoral da região

Fonte: IBGE — Censo Demográfico 2022 com dados de ancestralidade declarada

Figura 1
Distribuição dos Fototipos de Fitzpatrick: Sul do Brasil vs. Brasil Geral (%)

A pele humana é estruturalmente organizada em três camadas principais: epiderme, derme e hipoderme. Para a compreensão das manchas faciais, a atenção se concentra na epiderme, especificamente na camada basal (stratum basale), onde residem os melanócitos — células responsáveis pela síntese e distribuição da melanina.

Figura 2 - Estrutura Cutânea e Melanogênese: Comparativo entre Fototipos I–III e IV–VI

2.1 A Melanogênese nos Fototipos Claros

Um equívoco frequente é supor que a menor pigmentação basal dos fototipos I e II implica menor atividade melanocítica. Na realidade, o que difere entre fototipos não é o número de melanócitos (relativamente constante em todas as etnias, cerca de 1.000–1.500 por mm² de pele facial), mas sim aspectos funcionais e estruturais que determinam o comportamento pigmentar.9

Proporção de eumelanina/feomelanina: fototipos claros produzem mais feomelanina (pigmento avermelhado, de menor fotoproteção) e menos eumelanina (pigmento marrom-escuro, protetor). O polimorfismo do gene MC1R, altamente prevalente em descendentes de europeus do Norte e Centro-Europeus, determina essa proporção.11

Tamanho e distribuição dos melanossomas: em fototipos I–III, os melanossomas tendem a ser menores e agrupados em complexos, ao contrário dos fototipos V–VI, onde são maiores e individualmente dispersos. Esse arranjo confere menor proteção UV efetiva e maior reatividade a estímulos melanogênicos, explicando por que manchas surgem facilmente em pele clara com pequenas exposições.9,15

Resposta à radiação UV: a capacidade de bronzeamento imediato é reduzida, mas paradoxalmente há maior propensão a queimaduras e danos ao DNA em menores doses de UV — disparando cascatas inflamatórias e melanogênicas mesmo em exposições inócuas para fototipos mais escuros. Este fenômeno explica a alta taxa de melasma mesmo em mulheres do Sul que “quase nunca se bronzeiam”.1

2.2 Distribuição Anatômica das Manchas na Face

A topografia das hiperpigmentações faciais em mulheres sulistas segue padrões relativamente previsíveis, com implicações diretas para a abordagem terapêutica, uma vez que espessura, densidade vascular e quantidade de glândulas sebáceas variam significativamente entre as regiões faciais.15

Figura 3A / 3B Prevalência dos Tipos de Manchas Faciais no Sul do Brasil / Topografia das Manchas na Face (%)

Figuras 3A e 3B. Distribuição dos tipos e localização anatômica das hiperpigmentações faciais em amostra de 2.847 mulheres do Sul do Brasil. Fonte: Gomes et al., 2025; Grignoli et al., 2025.

3.1 Melasma

O melasma é a hiperpigmentação facial adquirida mais comum entre mulheres em idade fértil e a principal queixa nos consultórios dermatológicos do Sul do Brasil. Caracteriza-se por manchas simétricas, de bordas irregulares e coloração castanha a acinzentada, predominantemente nas áreas fotoexpostas.8,2 Em mulheres de fototipos I–III, o melasma apresenta características histológicas particulares:

  • Padrão epidérmico (70% dos casos): aumento de melanina confinado à epiderme, mais responsivo ao tratamento tópico
  • Padrão misto (25%): componente epidérmico + dérmico
  • Padrão dérmico (5%): melanófagos na derme, prognóstico mais reservado

A avaliação com luz de Wood e dermatoscopia é imprescindível para estadiamento correto, permitindo ao clínico antever a resposta terapêutica e definir o protocolo mais adequado.2

3.2 Efélides (Sardas)

As efélides são hiperpigmentações puntiformes de 1–3mm, localizadas em áreas fotoexpostas, com forte componente genético (gene MC1R). São significativamente mais prevalentes em fototipos I–II com cabelos ruivos, loiros ou castanhos claros — perfil altamente presente na população de descendência alemã e escandinava do Sul do Brasil.1

Ao contrário do melasma, as efélides tendem a clarear no inverno e intensificar no verão. Embora não representem risco oncológico direto, são marcadores de fotossensibilidade aumentada e risco elevado de dano actínico cumulativo.1

3.3 Hiperpigmentação Pós-Inflamatória (HPI)

A HPI resulta da ativação melanocítica secundária a processos inflamatórios como acne, dermatite seborreica e rosácea — condições de alta prevalência em fototipos II–III em climas temperados-úmidos. A rosácea, por exemplo, afeta entre 10–15% das mulheres de descendência nórdica e germânica, sendo um gatilho frequente para HPI no Sul.5

3.4 Lentigo Solar e Poiquilodermia de Civatte

O lentigo solar é comum em mulheres acima de 45 anos, acumulando dano actínico de décadas. No Sul, a fotoexposição recreativa intensa nos meses de verão (praias catarinenses e gaúchas), combinada com a falsa segurança da pele clara, cria um cenário de dano cumulativo significativo.14 A Poiquilodermia de Civatte, fotodano crônico do pescoço e face lateral, tem perfil típico da mulher de pele clara da Serra Gaúcha e do Planalto Serrano Catarinense com histórico de exposição solar prolongada.

O clima da Região Sul apresenta características peculiares que influenciam diretamente o comportamento da melanogênese e a eficácia dos tratamentos. Compreender a dinâmica sazonal do Índice UV é fundamental para qualquer protocolo terapêutico nessa região.

FIGURA 4 - Índice UV Médio Mensal: Sul do Brasil vs. Nordeste do Brasil

4.1 Sazonalidade e Ciclos de Melanogênese

O Índice UV (IUV) na Região Sul apresenta amplitude sazonal considerável: varia de 2–4 no inverno (junho–agosto) a 10–13 no verão (dezembro–fevereiro), especialmente em áreas de altitude elevada como Caxias do Sul (RS), Lages (SC) e no Planalto Paranaense.

Esse padrão oscilante cria um ciclo de “estímulo-remissão-reestímulo” para a melanogênese: no verão, há intensa estimulação melanocítica; no inverno, relativa remissão espontânea. Esse fenômeno induz erroneamente pacientes e profissionais a concluir que o tratamento foi bem-sucedido, quando na verdade houve apenas redução sazonal espontânea — seguida de recidiva intensa no verão subsequente.12

4.2 Altitude e Radiação UV Aumentada

A cada 1.000m de altitude, o IUV aumenta aproximadamente 10–12%. A Serra Gaúcha (600–900m), o Planalto Serrano Catarinense (800–1.800m) e o Planalto Paranaense (800–1.200m) concentram populações com exposição UV superior à de cidades litorâneas nas mesmas latitudes — um fator frequentemente negligenciado na prescrição de fotoprotetores para pacientes de Gramado, São Joaquim, Lages e Curitiba.14

📍 IUV por Cidade Sulista no Verão (Janeiro)

Florianópolis, SC (altitude ~5m): IUV médio 10–11
Curitiba, PR (altitude 934m): IUV médio 11–12
Caxias do Sul, RS (altitude 759m): IUV médio 10–12
Lages, SC (altitude 931m): IUV médio 11–13
São Joaquim, SC (altitude 1.360m): IUV médio 12–14

Fonte: INPE/SINDA 2025; Vieira et al., 2024

4.3 Fotoproteção e Hábitos Culturais

Uma peculiaridade comportamental relevante: mulheres do Sul tendem a associar pele bronzeada a saúde e beleza, fruto de influências culturais europeias. Pesquisa de Arellano et al. (2024) identificou que apenas 34% das mulheres do Sul com melasma ativo utilizavam fotoprotetor diariamente com FPS ≥ 30, comparado a 51% em São Paulo e 63% no Rio de Janeiro.12 Essa lacuna de adesão à fotoproteção é um dos principais determinantes das altas taxas de recidiva observadas nessa população.

A interação entre hormônios femininos e melanogênese é especialmente crítica em mulheres de fototipos claros, devido à maior instabilidade dos melanócitos nessa população. O estrogênio e a progesterona estimulam diretamente receptores melanocorticais, potencializando a síntese de melanina em resposta à radiação UV.11

5.1 Melasma Gestacional e Anticoncepcional

O melasma gestacional afeta 50–70% das gestantes de pele clara no Sul do Brasil, com início frequente no segundo trimestre. Os anticoncepcionais hormonais orais combinados (estrogênio + progesterona) são o segundo principal gatilho, responsáveis por 20–30% dos casos de melasma em mulheres abaixo de 40 anos.11

Para mulheres do Sul com melasma ativo, a discussão com ginecologista sobre alternativas contraceptivas não-estrogênicas (DIU hormonal de levonorgestrel, anticoncepcional de progesterona isolada) pode reduzir em 40–60% a incidência de melasma de rebote pós-tratamento.11

5.2 O Gene MC1R na População de Descendência Europeia

O polimorfismo do gene MC1R (Melanocortin 1 Receptor) é significativamente mais prevalente em descendentes de europeus do Norte e Centro (alemães, poloneses, holandeses, escandinavos) e determina a proporção feomelanina/eumelanina. Portadoras de variantes MC1R (variantes R) apresentam pele mais clara, sardas mais numerosas e maior risco de dano actínico acumulado — e respondem de forma diferente a tratamentos que dependem de eumelanina como “alvo” (como alguns protocolos de laser).11,4

“O gene MC1R não é apenas um marcador de cor da pele. É um regulador central da resposta ao dano solar, do risco de fotoenvelhecimento e da eficácia de agentes que modulam a via da tirosinase.”

— Woolery-Lloyd H et al., Journal of Clinical and Aesthetic Dermatology, 2025

5.3 Menopausa e Redistribuição Pigmentar

A queda estrogênica da menopausa altera a distribuição e atividade dos melanócitos faciais, resultando frequentemente em lentigos senis acelerados, HPI de aparecimento tardio e exacerbação de melasma pré-existente em algumas mulheres — e clareamento espontâneo em outras. Essa variabilidade individual exige avaliação personalizada antes de iniciar qualquer protocolo em pacientes acima de 50 anos.11

A premissa fundamental para o tratamento de hiperpigmentações em mulheres do Sul do Brasil é reconhecer que os protocolos desenvolvidos predominantemente para fototipos III–VI precisam de ajustes para essa população de fototipos I–III. As vantagens incluem menor risco de HPI pós-procedimento; as desvantagens incluem maior instabilidade pigmentar hormonal e solar.

FIGURA 5 - Eficácia dos Tratamentos para Melasma em Fototipos I-III (Redução do MASI em 16 semanas)

6.1 Despigmentantes Tópicos

Hidroquinona (HQ): Considerada padrão-ouro por décadas, a HQ 2–4% apresenta excelente resposta em fototipos I–III por dois motivos: menor risco de irritação que leva à HPI paradoxal (mais frequente em fototipos IV–V) e maior penetração em estrato córneo mais fino. Uso recomendado de 3–6 meses com monitoramento mensal para prevenção de ocrônose exógena.7

Ácido Tranexâmico (AT): Tornou-se o protagonista do tratamento do melasma em fototipos I–III na última década. Seu mecanismo — inibição da via do ativador do plasminogênio, reduzindo a interação queratinócito-melanócito — é especialmente eficaz no melasma epidérmico predominante nessa população. Pandya et al. (2025) demonstraram resposta completa em 72% das pacientes com fototipo I–III após 12 semanas de AT tópico 2–3% combinado com FPS 50+.17

Ácido Kójico e Ácido Ascórbico: O ácido ascórbico 10–20% (vitamina C estabilizada) demonstrou eficácia superior ao placebo em melasma epidérmico em fototipos claros, além de benefícios antioxidantes relevantes para o fotodano acumulado.6 O ácido kójico potencializa o efeito inibidor da tirosinase quando em combinação.

Retinóides Tópicos: O tretinoin 0,025–0,05% é bem tolerado em fototipos I–III e potencializa a eficácia de outros despigmentantes ao aumentar a renovação celular e a penetração tópica. Deve ser prescrito com cautela no verão em função do aumento da fotossensibilidade.

6.2 Peelings Químicos

Os peelings químicos representam uma das maiores vantagens terapêuticas para mulheres do Sul, justamente pelo menor risco de HPI pós-peeling em fototipos I–III. Protocolos que seriam contraindicados em fototipos IV–V por risco de hiperpigmentação reativa são perfeitamente adequados para essa população:

Tipo de PeelingAgente / ConcentraçãoIndicação PrincipalÉpoca Ideal (Sul)Segurança F. I–III
SuperficialÁcido Glicólico 20–70%
Ácido Salicílico 20–30%
Melasma epidérmico, HPI superficial, efélidesAno todo (com FPS)Excelente
MédioTCA 25–35%Lentigo solar, melasma misto, fotodano moderadoAbril–SetembroMuito Boa
Jessner ModificadoResorcinol 14% + AcSalicílico 14% + Ac. Lático 14%Melasma recalcitrante, HPI crônicaAbril–SetembroMuito Boa
Peeling de ResorcinolResorcinol 20–50%Efélides difusas, lentigo actinicoMaio–AgostoBoa
ProfundoFenol 88% (Baker-Gordon)Fotodano severo em F. I–IIApenas outono/invernoModerada*

*Peeling profundo requer preparo intensivo e seguimento rigoroso. Contraindicado em fototipos III+ sem avaliação especializada. Fonte: Lieberman et al., 2025; Rios et al., 2024.

6.3 Laser e Tecnologias de Luz

As tecnologias laser e IPL apresentam relação risco-benefício favorável em fototipos I–III, mas requerem configurações adaptadas. Bae et al. (2025) compararam Q-switched Nd:YAG vs. IPL em pacientes de fototipo I–III com melasma misto e encontraram resposta superior do Q-switched (redução do MASI de 68% vs. 54% com IPL).13

  • Laser Q-switched Nd:YAG 1064nm: Mais seguro entre os lasers para todos os fototipos; excelente para lentigo solar e melasma dérmico em pele clara13
  • Laser fracionado não-ablativo 1550nm: Indicado para melasma recalcitrante; parâmetros ajustados com maior densidade e fluências conservadoras
  • IPL (Luz Intensa Pulsada): Especialmente eficaz para efélides e lentigo solar em fototipos I–II; filtros de corte 560–590nm para manchas isoladas

6.4 Fotoproteção: A Pedra Angular do Tratamento

Qualquer protocolo de tratamento de manchas faciais que não inclua fotoproteção rigorosa está fadado ao fracasso — especialmente no Sul, onde o ciclo sazonal estimula recidivas.1,2 Recomendações específicas para mulheres sulistas:

Protocolo de Fotoproteção Recomendado — Sul do Brasil

FPS mínimo 50+ com proteção UVA (PPD ≥ 16 ou fator PA+++)
Reaplicação a cada 2 horas em exposição direta; a cada 4h em ambientes fechados
Uso no inverno: mesmo dias nublados com IUV 2–3 causam estimulação melanocítica cumulativa
Fotoprotetor com tint (cor): bloqueio de luz visível (HEV), que estimula melanogênese mesmo em fototipos I–III
Em altitudes elevadas: FPS 70+ recomendado acima de 800m de altitude (ex: Gramado, Lages, Curitiba)

A evidência científica atual converge para a superioridade dos protocolos combinados sobre as monoterapias no tratamento das hiperpigmentações faciais, com benefícios aditivos e sinérgicos que permitem menor concentração de cada agente e, portanto, melhor tolerabilidade.

7.1 Terapia Tripla Modificada — “Kligman Sul”

Baseada na fórmula clássica de Kligman (hidroquinona + tretinoin + corticosteroide), a versão adaptada para fototipos I–III do Sul do Brasil substitui o corticosteroide por componentes com melhor perfil de segurança para uso prolongado:

💊 Fórmula Magistral — Protocolo Sul I–III

Hidroquinona 2% + Ácido Tranexâmico 2% + Niacinamida 5% + Tretinoin 0,025%
Esta formulação magistral, validada por Rios et al. (2024), apresentou redução média do MASI de 71,3% em 16 semanas em pacientes de fototipo I–III, com excelente perfil de tolerabilidade e apenas 4,2% de descontinuação por efeitos adversos.16

Fase de uso: noturno (5 dias/semana na fase inicial, diário após 4 semanas de adaptação)

Duração: 16–24 semanas, com reavaliação mensal

7.2 Sequenciamento Terapêutico Trimestral

O sequenciamento correto dos procedimentos ao longo do ano é crucial para otimizar resultados e tirar proveito da sazonalidade do Sul:

FIGURA 6 - Sequenciamento Terapêutico ao Longo do Ano — Mulheres do Sul do Brasil

7.3 Abordagem Hormonal Integrada

Para mulheres com melasma hormonal (gestacional ou por anticoncepcionais), a abordagem deve incluir discussão com ginecologista sobre alternativas contraceptivas não-estrogênicas. DIU hormonal de levonorgestrel e métodos de progesterona isolada demonstram reduzir em 40–60% a incidência de melasma de rebote pós-tratamento em fototipos I–III.11

O impacto psicossocial das manchas faciais em mulheres sulistas não pode ser negligenciado pelo clínico. Um estudo de Hexsel et al. (2024) avaliou o índice DLQI (Dermatology Life Quality Index) em 430 mulheres do Sul com melasma e encontrou comprometimento moderado a severo da qualidade de vida em 58% das participantes — uma taxa comparável à encontrada em pacientes com psoríase leve e dermatite atópica.4

FIGURA 7 - Impacto na Qualidade de Vida (DLQI): Melasma vs. Outras Dermatoses

A pressão estética amplificada pelas redes sociais, associada ao padrão de “pele porcelana” valorizado em comunidades de descendência europeia, intensifica o sofrimento psicológico. O acompanhamento psicológico integrado ao tratamento dermatológico é recomendado em casos moderados a severos, especialmente quando o DLQI ≥ 10.4

A telemedicina dermatológica, em expansão acelerada desde 2020, tem demonstrado ser particularmente eficaz no seguimento de mulheres do Sul com melasma, permitindo monitoramento fotográfico padronizado, ajuste de protocolos e reforço da adesão à fotoproteção entre as consultas presenciais.

O campo da saúde estética pigmentar avança em direção a tratamentos mais precisos, personalizados e duradouros. Para a população feminina do Sul do Brasil, as seguintes inovações merecem atenção especial:

Terapias bioativas de nova geração: Oligopeptídeos inibidores de tirosinase de terceira geração demonstram eficácia superior à hidroquinona em estudos fase II, com perfil de segurança excelente em fototipos I–III. Moduladores seletivos do receptor MC1R estão em fase III de investigação para fototipos de alto polimorfismo (descendentes europeus).

Laser picossegundo com handpiece fracionada: A tecnologia picossegundo (pulsos em 10-12 segundos) demonstra resultados superiores ao Q-switched nanosegundo no melasma recalcitrante em pele clara, com menor risco de recidiva por dano térmico residual reduzido. Estudos em centros brasileiros do Sul estão em andamento.13

Inteligência artificial no diagnóstico pigmentar: Sistemas de dermatoscopia digital com IA para classificação automática do padrão de mancha, previsão de resposta terapêutica e detecção precoce de fotodano — com modelos específicos treinados para fototipos I–III — estão em implementação em centros de dermatologia de Porto Alegre, Curitiba e Florianópolis.

Bioestimuladores com efeito despigmentante adicional: Poli-L-ácido lático e hidroxiapatita de cálcio demonstram redução adicional de manchas além do remodelamento dérmico, potencialmente por estabilização do ambiente perivascular e redução do estímulo angiogênico à melanogênese — mecanismo especialmente relevante no melasma com componente vascular.8

As manchas faciais em mulheres do Sul do Brasil representam um desafio clínico singular, moldado pela convergência de três fatores: (1) a composição étnica de predominância europeia que confere fototipos I–III com comportamento melanogênico particular; (2) o clima temperado-subtropical com variações sazonais pronunciadas que criam ciclos de estimulação e remissão pigmentar; e (3) padrões culturais que historicamente subestimaram a necessidade de fotoproteção em pele clara.

O manejo eficaz dessas condições exige do profissional de saúde um profundo conhecimento das diferenças anatômicas da pele nessa população, a capacidade de adaptar protocolos desenvolvidos para outros fototipos e uma abordagem individualizada e multidisciplinar que considere fatores hormonais, comportamentais e psicossociais.

“A personalização do tratamento — com despigmentantes adequados ao fototipo, peelings na janela sazonal correta, tecnologias de luz bem calibradas e fotoproteção irrestrita — é o que diferencia resultados mediocres de transformações verdadeiramente sustentáveis para as pacientes do Sul do Brasil.”

— Compilação dos autores, baseada em Rios et al., 2024; Pandya et al., 2025

A atenção à singularidade regional não é apenas academicamente relevante — é eticamente necessária. Tratar uma mulher de fototipo II da Serra Gaúcha com o mesmo protocolo desenvolvido para uma mulher de fototipo IV do Nordeste é não apenas ineficaz, mas potencialmente prejudicial. A medicina personalizada começa no consultório dermatológico, e começa pelo conhecimento profundo do contexto geográfico, étnico e climático da nossa paciente.

68,4% das mulheres do Sul >30 anos apresentam alguma hiperpigmentação facial
72% da população sulista possui fototipo Fitzpatrick I-III
34% usam fotoprotetor diariamente com FPS ≥ 30
89% de eficácia da terapia combinada em melasma epidérmico
ESCALA DE FITZPATRICK

Tipo I – Sempre queima, nunca bronzeia
Tipo II – Sempre queima, bronzeia pouco
Tipo III – Às vezes queima, bronzeia
Tipo IV – Raramente queima, bronzeia bem
Tipo V – Nunca queima, bronzeia muito
Tipo VI – Nunca queima, pigmentação muito escura

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